o que ainda não fizemos será feito

26 de julho de 2017

o desejo não é falta
buraco para preencher
o desejo é  força
e cria no acontecer

a natureza manifestando-se
em nós
nas dobradiças nada
se mantém intacto
pelos corpos à volta
é todo modificado
o desejo absoluta imanência
em ato o corpo pode
o quanto têm de potência
para abrir clareiras
nas florestas de sombra
da alma o que ainda não fizemos
e será feito

25 de julho de 2017

meu sonho não dorme
no colo das esperas
aguardo para atravessar
o céu de teu olhar

meu sonho é no olimpo
com tua carne humana
meu sonho é solitário
infinito, imaginário

no meu sonho,  Eros
tira nossas roupas
com asas oníricas
mãos fogosas
e fantasia teu corpo
sobre meu corpo
entregue em rosas

 

24 de julho de 2017

aprendo da inércia
para onde não fui
aquilo que não fiz
e aos quem não respondi
ficar  indeterminada
pausa em fermata
no caminho que vai dar
pelas redundâncias
do não despejo do sim
e assim amansa
o desejo para o não
resígnio das oferendas

 

penso na noite

24 de julho de 2017

penso nas noites
de algumas mulheres mães
e de alguns homens pais
estas noites recém sem dormir
carregados no colo da tristeza
em prantos a dor de seus filhos
partidos da vida
ardem no tempo que arrasta
a partida irrompida

o dissabor experimentado
do dormir ao acordar.
não carrego por escolha
o âmago das aflições
no meio das dissoluções
o ponto que tudo  vai até
que  desintegra cada vez mais
do que era e chega
oro pelos que vão
choro com os que ficam
e  choram

para dentro do mistério

22 de julho de 2017

cubro o dia como quem
abre o cobertor
sobre a própria  cama
um rio de histórias
correm e atravessam travesseiros
no quais cabeças com agonias
se entregam –  sonham e dormem
para encontrar a manhã das preces
rogada pelos jardins

a noite alcança(rá) a todos
e passa que a coisa mais importante
do mundo, hoje, para mim seja fabricar
no imaginário pessoal meu próprio oásis
e  ter para beber  água
para repousar  potável
ar e comida que nutra
meu corpo mais íntimo
habitado de multidões

sou do grupo daquelas
que tem destinatário imaginário
as palavras movidas
pelas  paixões

celebro os agoras
por ocasião das surpresas
nos trajetos da vida

como nunca esquecerei a ocasião
que aquele cara com uma arma
girou na minha cabeça
e esperei morrer e receber
pela nuca o chumbo
e esperei que matassem minha amiga
depois da primeira prática de yoga
da vida

lembro do mais profundo
de tudo já vivido quando o corpo
 parece separar da alma
e aí  encerra a noite com o maior espanto
do comparecer ao desencontro
no instante que tudo cai
para dentro do mistério

isso prolifera

21 de julho de 2017

nunca fui boa em saber das dimensões
a maior e a menor parte
eu não sei dizer
ao certo qual o tamanho de nada
apesar de estar atenta
e observar quanto levamos
de um lugar a outro
nos deslocamentos
o tempo não consigo calcular
então entre  o perto e o longe
da dimensão o que eu noto
é qual o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
no traço que registro

a qualquer momento
tudo pode acontecer
alguém se quebrar
ou esbarrar com tudo
a cabeça  na porta baixa
ou duas pessoas distintas
baterem a cabeça na mesma porta
de vidro
o arroz passar do ponto
e virar pápa ou

cair o sabiá morto por esbarrar
na estreita janela de frente ao jardim
nossas duas crianças
eufóricas para tirá-lo do concreto
no qual caímos todos

fascinados pelo bicho morto
no caminho de volta
para a casa onde vamos
ainda que tenhamos controle
nessa caminhada, o dia que estava
apenas no começo
eu pensei que não dizia outra coisa
se aproximando de nós
de tudo sem que a gente veja
não temos controle
o que é vivo, muda,
o que é vivo, morre
e  isso prolifera
isso continua…

20 de julho de 2017

o tempo que leva um oceano
para atravessar uma janela
não é o tempo que se tem
para nadar até a escuridão

têm ritmos no tempo
que a solidão desmonta

há um convite do instante
e surge como demora
em olhar a boca com calma
dela as linhas para traçá-la
e ouví-la das  viagens  tocá-la
com  corpo todo em devaneios
como um jeito de se meter
nas camadas da pele
para dentro.

 

 

 

19 de julho de 2017

todos os dias por dentro de mim converso com meus mortos amigos.  sentada aos pés das vozes de Sêneca e Hannah Arendt as cadeiras da subjetividade dobram na roda dos tempos o tema do eu comigo mesmo. imensidão a ser também inventada para qual o ser tece e todo progresso começa quando ser amigo  de si é um destino e o vento que o leva é contínuo e vem de dentro da circulação do ar das vísceras. Clarice das investigações do ir ao encontro de si, disse que é sem desespero, que às três da madrugada, acordou e calma sem fulminação alguma, entrou em estado de graça, puro jubilo da condição do estando no diálogo em si, enquanto o cigarro queimava e a brasa caía. a quarta dimensão que a palavra atravessa e quem pergunta e o quem responde pelo avesso. vou me entregando como surpresa e quem me acompanha que me acompanhe. abro no andar da conversa comigo mesma que esse andar é passeio longo para me achar ao me perder em outros lados de mim.
 

17 de julho de 2017

eu sou essa que senta no sofá abre o livro e vê pela janela , tem vento. tempestades maiores virão. sou essa que esquece com o livro na mão da vida e até do que estava fazendo. eu sou essa que  recebe notícias  tristes bem na hora de ler e que são sempre as piores porque são todas. sou essa a quem esta semana deram um velório e que vivi-o de um estranho como se fosse um irmão que na verdade era primo de um amigo querido. eu sou essa que instantes antes recebido nas mãos uma dor tão grande dessas que mão alguma dá conta de carregar só. sou essa no velório do estranho irmão e essa dor tão grande nas mãos sou essa. ontem na madrugada pensando que não sei o que faço com tudo isso que existe e mata e bate e faz fratura no crânio. o rapaz que já não podia dar conta  sem ponderáveis do abandono e da falta paterna desde a barriga a mãe e a religião  e o rapaz bem do meio do país, severino de outro solo peregrina sozinho ama  tudo no privado na casa no íntimo no ninho, no amor se evapora a bebida o salário e tudo isso não bastasse dar conta o rapaz me liga e sou essa que parou para ler e o mundo derruba quando ele me entrega essa dor imensa agora, de quando andava com seu amigo na rua qual seja no batel na Curitiba, quando golpes lhes acertam. ambos e sofrem os golpes e mais golpes e caem em sangue pelo ódio que neste país encontra docência na desgovernância. quanta dor os corpos que todos os dias não menos suportam. sou essa com essas duas histórias correndo nestas linhas tantas outras com a dor. sou essa que chora por Sandro e Endrio e todos de todos os dias. e a polícia não faz o boletim e dá golpes e golpes na cabeça do rapaz gay que foi assaltado que foi registrar ocorrência… quem nos protege da polícia? neste país a vida levada a golpes… sou essa que grita por dentro, por Sandro assassinado. Endrio quase. ambos vítimas de homofobia!

eólica súplica

17 de julho de 2017

semântica telúrica
pós analítica polêmica
poligâmica ôntica
ótica háptica
apoteótica sinótica
aporética empática
sarcástica minigramática
específica enfática
utópica sincrética
lunática caótica
mistica pragmática
esporádica lúdica
eólica súplica